O aumento expressivo no número de recuperações judiciais no Brasil tem chamado a atenção do mercado de crédito. Dados recentes apontam que, ao final de 2025, 5.680 empresas recorreram à recuperação judicial, evidenciando um cenário de maior risco para quem atua com concessão e aquisição de crédito.
Para o setor de fomento mercantil e securitização, esse movimento exige atenção redobrada, revisão de práticas e fortalecimento dos mecanismos de análise e monitoramento.
Um cenário de risco crescente
O crescimento das recuperações judiciais não representa apenas um dado estatístico. Ele impacta diretamente a previsibilidade das operações e a segurança dos recebíveis.
Além disso, chama atenção o fato de que uma parcela relevante dessas recuperações não se sustenta ao longo do tempo, sendo convertida em falência. Esse cenário reforça a necessidade de avaliar com maior rigor a qualidade do crédito e a saúde financeira das empresas cedentes.
Outro ponto relevante é o uso cada vez mais frequente de mecanismos jurídicos complexos, como a recuperação extrajudicial associada a processos já existentes, o que pode aumentar a dificuldade de reação por parte dos credores.
Impactos para o setor de fomento e crédito privado
Empresas que atuam com antecipação de recebíveis estão diretamente expostas a esse risco, já que dependem da capacidade de pagamento dos cedentes e sacados.
Entre os principais impactos estão:
- aumento do risco de inadimplência;
- dificuldade na recuperação de crédito;
- pressão sobre margens e taxas;
- necessidade de revisão dos limites operacionais;
- maior atenção à estrutura das operações.
O ambiente exige decisões mais criteriosas e menos tolerância a operações com sinais de alerta.
Sinais que merecem atenção
Embora a recuperação judicial seja uma ferramenta legal e, em muitos casos, legítima, ela raramente acontece de forma repentina. Na maioria das vezes, a empresa apresenta sinais prévios de deterioração financeira.
Alguns pontos que devem ser observados:
- aumento expressivo de prazos de pagamento;
- alongamento no prazo de entrega de produtos ou serviços;
- crescimento acelerado na busca por crédito;
- mudanças societárias frequentes;
- venda de ativos relevantes, como imóveis;
- estruturas operacionais atípicas, como operações intercompany.
Esses elementos, isolados ou combinados, podem indicar necessidade de revisão imediata da exposição ao risco.
Monitoramento constante como estratégia
Em um cenário mais desafiador, o acompanhamento contínuo dos clientes deixa de ser diferencial e passa a ser requisito básico.
Boas práticas incluem:
- uso de ferramentas de análise de crédito atualizadas;
- monitoramento recorrente do comportamento do cedente;
- acompanhamento de alterações societárias;
- verificação de movimentações patrimoniais;
- revisão periódica dos limites de crédito.
É importante considerar que até mesmo clientes antigos podem apresentar mudanças relevantes no perfil de risco ao longo do tempo.
Disciplina operacional e tomada de decisão
Outro ponto crítico é a disciplina na concessão de crédito. A pressão competitiva pode levar à redução de taxas e flexibilização de critérios, aumentando a exposição ao risco.
Nesse contexto, é fundamental:
- manter critérios técnicos consistentes;
- evitar operações desalinhadas ao perfil de risco;
- não replicar práticas de mercado sem análise;
- preservar a rentabilidade e a segurança das operações.
A negativa de uma operação, quando tecnicamente justificada, também faz parte de uma gestão responsável.
O SINFAC-BA alerta para a importância do fortalecimento das práticas de análise e gestão de risco diante do aumento das recuperações judiciais no país.
O sindicato reforça que a proteção dos recursos próprios e de terceiros deve orientar todas as decisões operacionais, especialmente em um ambiente de maior incerteza.
A atuação responsável, baseada em informação, monitoramento contínuo e critérios técnicos sólidos, é essencial para a sustentabilidade do setor de fomento mercantil e crédito privado na Bahia e no Brasil.