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A Revolução do Embedded Finance: como FIDCs e securitizadoras estão financiando ecossistemas setoriais

Publicado em 05/11/2026

Artigo adaptado de Bruna Silveira de Souza, advogada da Neves Advogados Associados.

O mercado de crédito estruturado no Brasil está passando por uma transformação significativa. A evolução tecnológica, a digitalização dos negócios e o amadurecimento do ambiente regulatório estão ampliando as possibilidades de atuação dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) e das securitizadoras.

Se antes essas estruturas eram frequentemente associadas à antecipação de recebíveis e ao financiamento tradicional do capital de giro, hoje elas também participam de modelos mais integrados, conectando empresas, plataformas digitais e investidores.

É nesse cenário que ganha força o Embedded Finance, ou Finanças Embutidas, conceito que consiste na oferta de serviços financeiros diretamente em plataformas e ambientes comerciais que não têm a atividade financeira como seu negócio principal.

Na prática, uma empresa pode acessar soluções de crédito dentro do próprio sistema que utiliza para administrar suas vendas, seu estoque ou seu relacionamento com clientes.

Para o mercado de direitos creditórios, essa integração representa novas possibilidades de originação, análise de risco e financiamento de diferentes setores da economia.

O poder dos dados na concessão de crédito

Um dos principais diferenciais do Embedded Finance está na utilização de dados transacionais para avaliar a capacidade financeira das empresas.

Nos modelos tradicionais de análise de crédito, informações como balanços patrimoniais, histórico de faturamento e demonstrações financeiras desempenham papel central.

Embora esses indicadores continuem importantes, plataformas de gestão empresarial e fintechs especializadas permitem incorporar informações mais atualizadas sobre o funcionamento dos negócios.

Entre os dados que podem contribuir para essa análise estão:

  • Recorrência de vendas: acompanhamento do volume e da frequência das transações comerciais.
  • Fluxo de caixa: identificação de entradas, saídas e necessidades futuras de capital.
  • Comportamento dos clientes: análise da recorrência de compras e do histórico de pagamentos.
  • Desempenho da cadeia produtiva: monitoramento das relações entre fornecedores, distribuidores e compradores.

Quando utilizados de forma adequada, esses dados permitem que FIDCs e securitizadoras desenvolvam modelos de avaliação mais próximos da realidade operacional das empresas.

Isso não elimina o risco de inadimplência, mas pode contribuir para decisões mais fundamentadas, melhor precificação das operações e identificação antecipada de possíveis dificuldades financeiras.

FIDCs e securitizadoras como instrumentos de financiamento

A integração entre tecnologia e mercado de capitais também tem favorecido o desenvolvimento de estruturas de financiamento adaptadas às necessidades de diferentes segmentos.

Uma das possibilidades é o modelo conhecido como FIDC as a Service, no qual empresas de tecnologia e plataformas digitais se conectam a estruturas de fundos já organizadas com os prestadores de serviços exigidos pela regulamentação.

Nesse formato, a plataforma pode participar da originação de operações e do relacionamento comercial com os clientes, enquanto o fundo realiza a aquisição dos direitos creditórios, conforme sua política de investimento e as responsabilidades de seus prestadores de serviços.

A estrutura permite que empresas especializadas em determinados mercados contribuam com seu conhecimento sobre clientes, transações e cadeias produtivas.

Outro elemento importante é a divisão de riscos entre diferentes classes de cotas dos FIDCs.

Em determinadas estruturas, as cotas subordinadas absorvem inicialmente as perdas da carteira, oferecendo uma camada adicional de proteção às cotas seniores.

Esse mecanismo pode facilitar a captação de recursos junto a investidores com diferentes perfis de risco, embora não elimine a possibilidade de perdas.

Para as securitizadoras, a tecnologia também amplia as oportunidades de identificação, aquisição e estruturação de direitos creditórios originados em diferentes atividades econômicas.

Novos setores ganham espaço no crédito estruturado

O avanço do Embedded Finance tem permitido que soluções de financiamento sejam desenvolvidas considerando as particularidades de cada segmento.

Entre os mercados com potencial para utilização dessas estruturas estão:

Telecomunicações

Provedores de internet e empresas de telecomunicações possuem necessidades recorrentes de investimento em infraestrutura, equipamentos e expansão de redes.

Operações estruturadas com direitos creditórios elegíveis podem contribuir para financiar essas necessidades, considerando os fluxos de recebíveis e as características contratuais de cada negócio.

Educação e saúde

Instituições de ensino, clínicas, hospitais e prestadores de serviços de saúde também podem utilizar estruturas de antecipação de recebíveis.

Mensalidades escolares, pagamentos contratados e determinados valores a receber de operadoras de planos de saúde são exemplos de fluxos que podem ser analisados para operações estruturadas, observadas as exigências jurídicas e regulatórias.

Franquias

Redes de franquias apresentam características que favorecem a análise integrada de informações comerciais.

A centralização de dados de vendas e pagamentos pode contribuir para a estruturação de soluções destinadas ao financiamento de estoques, modernização de unidades e necessidades de capital de giro dos franqueados.

Cadeias de fornecedores

Empresas inseridas em cadeias produtivas também podem se beneficiar de operações estruturadas a partir de recebíveis comerciais.

Ao integrar informações sobre pedidos, entregas, faturamento e pagamentos, plataformas digitais podem facilitar a identificação de oportunidades de antecipação de recursos e financiamento de fornecedores.

Esses exemplos demonstram que o mercado de direitos creditórios pode atender necessidades cada vez mais específicas, ampliando sua participação no financiamento da economia real.

Regulação e segurança das operações

O desenvolvimento dessas estruturas também exige atenção ao ambiente regulatório.

A Resolução CVM nº 175 representa um marco importante para os fundos de investimento no Brasil, estabelecendo regras relacionadas à organização, ao funcionamento e à prestação de serviços dos fundos, incluindo disposições específicas aplicáveis aos FIDCs.

Além disso, a evolução dos mecanismos de registro, controle e compartilhamento de informações de crédito contribui para o aprimoramento da gestão de riscos.

O acesso a informações sobre endividamento e histórico de operações, quando permitido pelas normas aplicáveis, pode apoiar a avaliação da capacidade financeira dos tomadores e a identificação de exposições relevantes.

Entretanto, a tecnologia não substitui procedimentos essenciais de conformidade.

A validação da existência dos direitos creditórios, a verificação de sua titularidade, a prevenção de fraudes, a proteção de dados e o acompanhamento da carteira continuam sendo fundamentais para a segurança das operações.

O crescimento do Embedded Finance deve, portanto, caminhar junto com o fortalecimento da governança e dos controles internos.

O que essa transformação representa para o mercado?

O Embedded Finance demonstra que o futuro do crédito estruturado não depende apenas da disponibilidade de recursos, mas também da capacidade de compreender as necessidades e os fluxos financeiros dos diferentes setores econômicos.

A integração entre plataformas tecnológicas, empresas originadoras, FIDCs, securitizadoras e investidores pode tornar o financiamento mais acessível, ágil e adequado às características de cada atividade.

Para as empresas, isso representa a possibilidade de encontrar soluções financeiras dentro dos ambientes em que já realizam suas operações comerciais.

Para os participantes do mercado de direitos creditórios, surgem oportunidades de diversificação de carteiras, desenvolvimento de novos produtos e ampliação do relacionamento com diferentes cadeias produtivas.

O diferencial competitivo estará na capacidade de combinar informação de qualidade, tecnologia, estruturação financeira e gestão responsável dos riscos.

Posicionamento do Sinfac Bahia

O Sinfac Bahia reconhece o Embedded Finance como uma tendência relevante para a modernização do mercado de direitos creditórios e para a ampliação das alternativas de financiamento empresarial.

A integração entre tecnologia, dados e estruturas de crédito pode contribuir para tornar as operações mais eficientes, fortalecer cadeias produtivas e ampliar o acesso das empresas a soluções financeiras adequadas às suas necessidades.

O Sindicato destaca, entretanto, que a inovação deve estar acompanhada de segurança jurídica, transparência, proteção de dados e boas práticas de governança.

Nesse cenário, o fortalecimento das empresas de fomento comercial, securitizadoras e demais participantes do setor passa também pela capacidade de acompanhar as transformações tecnológicas e regulatórias do mercado.

Para o Sinfac Bahia, inovação e segurança devem caminhar juntas na construção de um mercado de crédito mais moderno, competitivo e sustentável.

Este conteúdo possui caráter informativo e não substitui análise jurídica ou regulatória específica.

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